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Bittencourt: “Temos uma tarefa histórica em defesa da engenharia e da sociedade”

Foto: Christina Bocayuva

Após seis anos como presidente da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros – Fisenge, o engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal do Paraná, Carlos Roberto Bittencourt encerrou seu segundo mandato este ano. A nova diretoria da Fisenge assumiu durante o 10º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros – Consenge, realizado no mês de agosto.

Nesta entrevista, ele avalia o Congresso, faz um balanço do seu mandato e faz suas projeções para o futuro do movimento sindical.

Chegamos ao final da maior edição do Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros. Qual a sua avaliação ao encerrar este mandato?
Encerramos uma edição histórica de nossos congressos. Isso porque não apenas batemos recorde de participação, como também demos um enorme salto político. “Um projeto de nação para o Brasil” sempre foi nosso debate de fundo e priorizá-lo como tema central, certamente, representa nosso esforço de apresentar à engenharia e à sociedade uma plataforma de propostas em prol do desenvolvimento nacional. Alinhamos esse tema central a duas vertentes que conduzem a nossa direção: os interesses corporativos e os interesses nacionais. Desta forma, o Congresso foi subdividido em dois temas: “O papel do Estado brasileiro no desenvolvimento nacional” e “O papel do movimento sindical frente às modificações do mundo do trabalho”.

Que projeto de nação a Fisenge defende?
A conjuntura aponta a necessidade da defesa e da afirmação de um projeto popular de nação, alinhado às lutas do campo e da cidade. Estamos em um ano de eleições para presidência da República e temos a certeza de que não existe terceira via. O que está em jogo em nosso país são dois projetos claros, um de comprometimento com as lutas sociais e o desenvolvimento do país e outro alinhado à agenda neoliberal de entrega ao capital financeiro. Este último com um adendo ainda mais agravante: a influência do fundamentalismo religioso. O discurso da nova política facilmente se fragiliza na medida que repete o receituário da década de 90. A nova política já está em curso no país, a partir do momento que pobres, negros e mulheres ocupam espaços nas universidades e no mercado de trabalho. Os cenários são diametralmente opostos aos das décadas perdidas. Hoje, a maioria dos brasileiros e das brasileiras têm acesso a crédito, milhares saíram da linha extrema da pobreza e estão nas universidades. Esse é o projeto que defendemos, com justiça social, fortalecimento do mercado interno e distribuição de renda.

O que significa homenagear o engenheiro Rubens Paiva no ano dos 50 anos do golpe civil-militar no Brasil?
Iniciamos as homenagens exatamente no mês de abril, quando, lamentavelmente, lembramos os horrores dos 50 anos do golpe civil-militar. Publicamos, em abril, uma revista especial com uma entrevista com o autor da lei 4.950-A/1966, Almino Affonso, que revelou que Rubens Paiva foi a inspiração para a elaboração de nossa lei. Nessa publicação, contamos um pouco sobre a trajetória de Rubens como engenheiro e seu comprometimento com a função social de nossa profissão. A partir daí, decidimos nomear nosso congresso com o nome de Rubens Paiva e promovemos uma homenagem à família. Rubens, além de engenheiro, foi deputado federal e defensor da liberdade do povo brasileiro. Desde os tempos de faculdade até o parlamento, Rubens sempre defendeu o monopólio estatal do petróleo, bem como as riquezas estratégicas do país. Homenagear Rubens Paiva significa saudar a luta das brasileiras e dos brasileiros pela democracia do país.

A necessidade de ampliação da participação social foi elemento transversal na discussão sobre ” O papel do Estado brasileiro no desenvolvimento nacional”. Qual a importância deste debate?
Tivemos a certeza de que a reforma política é imprescindível. Não podemos adiar mais. O sistema político brasileiro ainda é muito conservador e precisa avançar. Defendemos o financiamento público de campanha para romper com o abuso do poder econômico, mas para além dos muros do parlamento, compreendemos que é necessária uma mudança maior, como a democratização dos meios de comunicação e a reforma tributária. O acesso à informação não pode ser refém de apenas algumas famílias, como são as donas das mídias no Brasil. Os avanços de uma sociedade só acontecerão com a participação de todas e de todos os brasileiros. A política é parte do nosso cotidiano e ignorá-la é a forma mais negligente de entregá-la para o outro. É responsabilidade de cada um contribuir para a política brasileira.

E em relação ao movimento sindical?
O mundo do trabalho tem passado por intensas transformações. Quando falamos nessas mudanças, remetemos, por exemplo, às formas de contratação e à alta rotatividade nos postos de trabalho. Isso influencia no modo de organização da classe trabalhadora e atinge diretamente os sindicatos. Compreendemos que a renovação sindical é urgente, mas devemos formular a renovação destes quadros para além de nomes, e pensar em novas estratégias de organização e discursos. O consenso de nosso congresso frente a este tema foi a aproximação dos jovens e estudantes nas instâncias dos sindicatos e a ampliação da participação das mulheres. A Fisenge, hoje, possui uma Diretoria da Mulher reconhecida nacionalmente, organizada pelo Coletivo de Mulheres da Fisenge. A participação de mulheres engenheiras nas instâncias sindicais é essencial para a formulação de políticas específicas de gênero. Por exemplo, em uma mesa de negociação com uma empresa, a mulher terá a clareza das reivindicações específicas, como garantia de creches, cláusulas sobre acompanhamento de filhos ao médico, licença-paternidade, entre outros.

A Carta do Rio de Janeiro traz uma série de princípios, entre eles a defesa da soberania nacional. Por que essa defesa intransigente?
Historicamente, as riquezas estratégicas de um país são disputadas pela hegemonia internacional. É claro que essa disputa traz uma série de ataques. Após a Guerra Fria, a polarização entre Estados Unidos e União Soviética ficou extremamente esvaziada, o que afirmou a posição imperialista dos EUA. O elemento que conduziu e ainda conduz a geopolítica internacional são as riquezas nacionais. Tanto que assistimos a inúmeras guerras e crises internacionais, especialmente quando falamos em petróleo. Após a descoberta do pré-sal, o Brasil tem alavancado saltos de crescimento social e econômico e firmado posicionamento de soberania internacional. É claro que este deslocamento não é isolado e um exemplo é a formação dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). Mesmo com realidades de mercado interno completamente diferentes, a unidade destes países sinaliza a tentativa de desmontar a hegemonia ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Hoje, o que acontece em nosso país? Uma égide de desmoralização da Petrobras, capitaneada pelos meios de comunicação e setores conservadores da sociedade. O ataque à Petrobras faz parte de uma estratégia que abre uma avenida de oportunidades para a privatização. Com este entendimento, nós, engenheiros e engenheiras reunidos no Consenge, defendemos a apropriação social do pré-sal brasileiro como forma de afirmação da soberania nacional.

Mais uma diretoria eleita e dois mandatos encerrados. Qual o balanço?
Em primeiro lugar, agradeço a confiança de todos e todas que me elegeram presidente da Fisenge por dois mandatos, permeados pela construção coletiva e participação dos sindicatos. Demos um salto na área administrativa com projetos de gestão sindical e avançamos na comunicação. Politicamente, um dos nossos maiores ganhos foi a ampliação da participação das mulheres na Fisenge, por meio da Diretoria da Mulher e do Coletivo de Mulheres da Federação. As ações da Diretoria e do Coletivo ganharam capilaridade e reconhecimento nacional. Temos muito orgulho quando essa agenda é reconhecida por outras entidades de classe e movimentos sociais. Outro ponto importante foi a filiação de mais um sindicato à Fisenge, o Sindicato dos Engenheiros Agrônomos do Rio Grande do Norte, homologado em nosso Congresso. A Fisenge esteve nos principais debates nacionais como: energia, habitação, transporte, mobilidade urbana, políticas agrária e agrícola, além de participação efetiva nas negociações coletivas nacionais e na articulação internacional com demais entidades. Completamos 20 anos de história com a certeza de que ainda temos uma tarefa histórica em defesa da engenharia nacional e da sociedade brasileira. Essas duas décadas de lutas alimentam nossas esperanças para o futuro.

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Bittencourt: “Ainda temos uma tarefa histórica em defesa da engenharia nacional e da sociedade brasileira”

Foto: Christina Bocayuva

Após seis anos como presidente da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros – Fisenge, o engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal do Paraná, Carlos Roberto Bittencourt encerrou seu segundo mandato este ano. A nova diretoria da Fisenge assumiu durante o 10º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros – Consenge, realizado no mês de agosto.

Nesta entrevista, ele avalia o Congresso, faz um balanço do seu mandato e faz suas projeções para o futuro do movimento sindical.

Chegamos ao final da maior edição do Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros. Qual a sua avaliação ao encerrar este mandato?
Encerramos uma edição histórica de nossos congressos. Isso porque não apenas batemos recorde de participação, como também demos um enorme salto político. “Um projeto de nação para o Brasil” sempre foi nosso debate de fundo e priorizá-lo como tema central, certamente, representa nosso esforço de apresentar à engenharia e à sociedade uma plataforma de propostas em prol do desenvolvimento nacional. Alinhamos esse tema central a duas vertentes que conduzem a nossa direção: os interesses corporativos e os interesses nacionais. Desta forma, o Congresso foi subdividido em dois temas: “O papel do Estado brasileiro no desenvolvimento nacional” e “O papel do movimento sindical frente às modificações do mundo do trabalho”.

Que projeto de nação a Fisenge defende?
A conjuntura aponta a necessidade da defesa e da afirmação de um projeto popular de nação, alinhado às lutas do campo e da cidade. Estamos em um ano de eleições para presidência da República e temos a certeza de que não existe terceira via. O que está em jogo em nosso país são dois projetos claros, um de comprometimento com as lutas sociais e o desenvolvimento do país e outro alinhado à agenda neoliberal de entrega ao capital financeiro. Este último com um adendo ainda mais agravante: a influência do fundamentalismo religioso. O discurso da nova política facilmente se fragiliza na medida que repete o receituário da década de 90. A nova política já está em curso no país, a partir do momento que pobres, negros e mulheres ocupam espaços nas universidades e no mercado de trabalho. Os cenários são diametralmente opostos aos das décadas perdidas. Hoje, a maioria dos brasileiros e das brasileiras têm acesso a crédito, milhares saíram da linha extrema da pobreza e estão nas universidades. Esse é o projeto que defendemos, com justiça social, fortalecimento do mercado interno e distribuição de renda.

O que significa homenagear o engenheiro Rubens Paiva no ano dos 50 anos do golpe civil-militar no Brasil?
Iniciamos as homenagens exatamente no mês de abril, quando, lamentavelmente, lembramos os horrores dos 50 anos do golpe civil-militar. Publicamos, em abril, uma revista especial com uma entrevista com o autor da lei 4.950-A/1966, Almino Affonso, que revelou que Rubens Paiva foi a inspiração para a elaboração de nossa lei. Nessa publicação, contamos um pouco sobre a trajetória de Rubens como engenheiro e seu comprometimento com a função social de nossa profissão. A partir daí, decidimos nomear nosso congresso com o nome de Rubens Paiva e promovemos uma homenagem à família. Rubens, além de engenheiro, foi deputado federal e defensor da liberdade do povo brasileiro. Desde os tempos de faculdade até o parlamento, Rubens sempre defendeu o monopólio estatal do petróleo, bem como as riquezas estratégicas do país. Homenagear Rubens Paiva significa saudar a luta das brasileiras e dos brasileiros pela democracia do país.

A necessidade de ampliação da participação social foi elemento transversal na discussão sobre ” O papel do Estado brasileiro no desenvolvimento nacional”. Qual a importância deste debate?
Tivemos a certeza de que a reforma política é imprescindível. Não podemos adiar mais. O sistema político brasileiro ainda é muito conservador e precisa avançar. Defendemos o financiamento público de campanha para romper com o abuso do poder econômico, mas para além dos muros do parlamento, compreendemos que é necessária uma mudança maior, como a democratização dos meios de comunicação e a reforma tributária. O acesso à informação não pode ser refém de apenas algumas famílias, como são as donas das mídias no Brasil. Os avanços de uma sociedade só acontecerão com a participação de todas e de todos os brasileiros. A política é parte do nosso cotidiano e ignorá-la é a forma mais negligente de entregá-la para o outro. É responsabilidade de cada um contribuir para a política brasileira.

E em relação ao movimento sindical?
O mundo do trabalho tem passado por intensas transformações. Quando falamos nessas mudanças, remetemos, por exemplo, às formas de contratação e à alta rotatividade nos postos de trabalho. Isso influencia no modo de organização da classe trabalhadora e atinge diretamente os sindicatos. Compreendemos que a renovação sindical é urgente, mas devemos formular a renovação destes quadros para além de nomes, e pensar em novas estratégias de organização e discursos. O consenso de nosso congresso frente a este tema foi a aproximação dos jovens e estudantes nas instâncias dos sindicatos e a ampliação da participação das mulheres. A Fisenge, hoje, possui uma Diretoria da Mulher reconhecida nacionalmente, organizada pelo Coletivo de Mulheres da Fisenge. A participação de mulheres engenheiras nas instâncias sindicais é essencial para a formulação de políticas específicas de gênero. Por exemplo, em uma mesa de negociação com uma empresa, a mulher terá a clareza das reivindicações específicas, como garantia de creches, cláusulas sobre acompanhamento de filhos ao médico, licença-paternidade, entre outros.

A Carta do Rio de Janeiro traz uma série de princípios, entre eles a defesa da soberania nacional. Por que essa defesa intransigente?
Historicamente, as riquezas estratégicas de um país são disputadas pela hegemonia internacional. É claro que essa disputa traz uma série de ataques. Após a Guerra Fria, a polarização entre Estados Unidos e União Soviética ficou extremamente esvaziada, o que afirmou a posição imperialista dos EUA. O elemento que conduziu e ainda conduz a geopolítica internacional são as riquezas nacionais. Tanto que assistimos a inúmeras guerras e crises internacionais, especialmente quando falamos em petróleo. Após a descoberta do pré-sal, o Brasil tem alavancado saltos de crescimento social e econômico e firmado posicionamento de soberania internacional. É claro que este deslocamento não é isolado e um exemplo é a formação dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). Mesmo com realidades de mercado interno completamente diferentes, a unidade destes países sinaliza a tentativa de desmontar a hegemonia ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Hoje, o que acontece em nosso país? Uma égide de desmoralização da Petrobras, capitaneada pelos meios de comunicação e setores conservadores da sociedade. O ataque à Petrobras faz parte de uma estratégia que abre uma avenida de oportunidades para a privatização. Com este entendimento, nós, engenheiros e engenheiras reunidos no Consenge, defendemos a apropriação social do pré-sal brasileiro como forma de afirmação da soberania nacional.

Mais uma diretoria eleita e dois mandatos encerrados. Qual o balanço?
Em primeiro lugar, agradeço a confiança de todos e todas que me elegeram presidente da Fisenge por dois mandatos, permeados pela construção coletiva e participação dos sindicatos. Demos um salto na área administrativa com projetos de gestão sindical e avançamos na comunicação. Politicamente, um dos nossos maiores ganhos foi a ampliação da participação das mulheres na Fisenge, por meio da Diretoria da Mulher e do Coletivo de Mulheres da Federação. As ações da Diretoria e do Coletivo ganharam capilaridade e reconhecimento nacional. Temos muito orgulho quando essa agenda é reconhecida por outras entidades de classe e movimentos sociais. Outro ponto importante foi a filiação de mais um sindicato à Fisenge, o Sindicato dos Engenheiros Agrônomos do Rio Grande do Norte, homologado em nosso Congresso. A Fisenge esteve nos principais debates nacionais como: energia, habitação, transporte, mobilidade urbana, políticas agrária e agrícola, além de participação efetiva nas negociações coletivas nacionais e na articulação internacional com demais entidades. Completamos 20 anos de história com a certeza de que ainda temos uma tarefa histórica em defesa da engenharia nacional e da sociedade brasileira. Essas duas décadas de lutas alimentam nossas esperanças para o futuro.

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